segunda-feira, 29 de junho de 2009

IGNORÂNCIA


IGNORÂNCIA


Maria Julia era uma menina que vivia perambulando pelo nosso bairro, e todos a conheciam como “ Zula, a bobinha”. Quer fizesse sol, chuva ou frio, lá estava ela, sempre na rua, suja e maltrapilha, com o nariz escorrendo e aquele rostinho fragilizado a esperar sabe-se lá o que da vida. Onde quer que achasse um portão aberto, ela entrava, postava-se em frente a porta da casa e ali ficava até que lhe dessem um prato de comida.. Nada falava e nada exigia, e de vez enquanto o esboço de um sorriso transparecia em seu rosto ao ver a alegria das crianças que brincavam felizes.

Tinha pai e tinha mãe, mas de que lhe adiantava? Nem lhe enxergavam no meio daquela turminha onde o alimento era escasso e o carinho não existia. O pai trabalhava feito louco e se desdobrava em horas extras, mas mesmo assim o salário era pouco, para saciar aquela prole. A mãe, que poderia estar ajudando, mais parecia um anciã em seus 45 anos de vida e 10 filhos, doente, envelhecida e alquebrada nada mais fazia a não ser dormir. Os filhos tão logo aprendiam a correr, também aprendiam que a rua era o melhor lugar para a barriga vazia e perambulavam pelos bairros da periferia.

E assim, Zula entrou para a adolescência e foi ficando mocinha. As pessoas mais compreensivas e generosas do bairro, ( incluindo minha mãe), colocavam-na no banho e davam-lhe uma muda de roupa usada para trocar, o que para ela, era um presente dos deuses e a felicidade transparecia em seu olhar. Ninguém sabia porque ela não falava, soltava a voz, mas só para dizer entre dentes: “ sim e não, sim e não”. Só aparecia em sua casa para dormir, isto quando aparecia, pois a maior parte das vezes ela dormia no banco da praça ou nos degraus da igreja para indignação das beatas , que tanto se incomodavam mas nada faziam para melhorar a vida daquela pobre criatura ambulante.

Um dia, Zula apareceu doente e vomitando. As beatas ficaram com os cabelos em pé, e se ela estivesse grávida? Uma delas, banhou Zula trocou-a e a levou a um médico, e de fato, estava grávida. O alarido do bairro foi geral pois todas as comadres a conheciam e a noticia se alastrou em questão de minutos. Quem seria o bastardo abusante? E por mais que perguntassem a Zula, ela nada respondia, era de uma ignorância total. Mas que esperar de uma menina de 13 anos, bobinha e analfabeta que jamais teve conhecimento das regras básicas da vida e das maldades que proliferavam?
Havia tantos culpados...

O médico, ciente da vida que a menina levava, e de todos os problemas que poderiam surgir com uma criança à tiracolo, prontificou-se a fazer um aborto. Mas as beatas reagiram de modo espetacular, e se prontificaram a cuidar da menina, na intenção de salvar uma alma de Deus. E assim, Zula foi levando a vida e a barriga para frente. Comia e dormia aqui e ali, mas ninguém a queria definitivamente. Quando chegou o dia do BB nascer, alguém a levou para o hospital e esqueceu-a. E ela teve o BB, um bonito e viçoso menino, que tão logo foi colocado sem seus braços, ela agarrava e enchia de beijos numa euforia quase louca, como se fora o brinquedo que ela jamais tivera .Quando teve alta, ninguém apareceu para ajudá-la, nem sequer um parente. A direção do hospital achou por bem, ficar com o BB para ser adotado por alguém que garantisse um futuro promissor para àquele linda e adorável
criança que de nada tinha culpa.

À tarde, colocaram-na chorando para fora do hospital, mas ela, sem o seu precioso fardo, não foi embora. Ficou ali, rondando o hospital feito um cachorrinho acuado. E veio a noite, não se sabe como ela conseguiu burlar a vigilância e entrar no hospital. Do mesmo modo, conseguiu entrar no berçário, e na semi-claridade, pegar o BB que julgava ser seu, pois
“ Mãe nunca se engana”, e sair de mansinho, com o precioso fardo nos braços.

Correu para fora feliz da vida com seus filho quentinho e seguro em seus braços. Foi então que ouviu a balburdia das enfermeiras alertando os guardas, que imediatamente correram atrás dela. Ela correu mais ainda, frágil e fraca como estava, tropeçou no meio da rua e estatelou-se no meio do asfalto que imediatamente se tingiu de rubro, pois um carro que passava em alta velocidade não pode frear em tempo e matou-a instantaneamente. O BB, arremessado ao longe, bateu a cabecinha no asfalto e também morreu. Imediatamente juntou-se uma multidão de curiosos, mídia e autoridades para cobrir e divulgar a tragédia. No outro dia, Zula que enquanto viva, era só uma bobinha indigente, virou manchete na primeira página, mas a verdade da verdade, jamais foi dita.
Mas só assim, a pequena Zula subiu para Deus com o seu preciosos fardo e enfim descansou.

Sobre a obra
Quantas Marias perambulam por ai, sem cuidados, sem amparo e sem condições dignas para sobreviverem?

sexta-feira, 5 de junho de 2009

A LENDA DO GUARANÁ


A LENDA DO GUARANÁ


Conta a lenda que um casal de índios Maués, viviam juntos a muitos anos e ainda não tinham filhos. Um dia, pediram a Tupã para dar-lhes uma criança. Tupã atendeu o desejo do casal e deu-lhes um lindo menino, que cresceu cheio de graça e beleza e se tornou querido de toda a tribo.

No entanto, Jurupari, o Deus da escuridão e do mal, sentia muita inveja do menino e decidiu matá-lo. Certo dia, quando o menino foi coletar frutos na floresta, Jurupari aproveitou para se transformar numa serpente venenosa e matar o menino. Neste momento, fortes trovões ecoaram por toda a aldeia, e relâmpagos luziam no céu em protesto.

A mãe, chorando em desespero ao achar seu filho morto, entendeu que os trovões eram uma mensagem de Tupã. Em sua crença, Tupã dizia-lhe que deveria plantar os olhos da criança e que deles nasceria uma nova planta, dando saborosos frutos, que fortaleceria os jovens e revigoraria os velhos. E os índios, plantaram os olhos da criança e regavam todos os dias. Logo mais, nesse lugarzinho onde foi enterrado os olhos do indiozinho, nasceu o Guaraná, cujos frutos, negros como azeviche, envoltos por uma orla branca em sementes rubras, são muito semelhantes aos olhos dos seres humanos.


O GUARANÁ


O Guaraná é um arbusto trepador pertencente à família das Sepindáceas, Paullinia Cupana. Sua casca é escura e as cascas são pinadas. As flores de tamanho médio são muito aromáticas, e os frutos, vermelhos e brilhantes, quando secos tornam-se pretos. O Guaraná é muito empregado como planta medicinal para evitar a arteriosclerose, e auxiliar nos problemas do coração e das artérias, funcionando como um notável cardiovascular. Pode também ser usado como sedativo e adstringente intestinal, na ocorrência de diarréias crônicas. Suas sementes após torradas e moídas, convertidas em massa, é utilizadas no comercio como pó de guaraná, e serve para o feitio de refrescos e refrigerantes.


A FESTA DO GUARANÁ


A primeira festa do guaraná realizada em Maués, ( a 260 Km de Manaus), deu-se em novembro de 1979, com o apoio da prefeitura e do governo do Estado do Amazonas. Este evento foi criado como forma de homenagear o produtor de Guaraná, que é a base de sustentação do município de Maués, atraindo novos investimento e divulgando o guaraná além de suas fronteiras. Em 1.980, a festa do Guaraná ganhou espaço internacional, quando foi transmitida pelo fantástico pela Rede Globo de televisão. Em 1.995 , a festa do Guaraná passou a ser transmitida via Satélite pela Rede Amazônica de Televisão. Esta festa é muito bonita, pois é realizado o concurso de Rainha do Guaraná, apresentada a lenda do Guaraná e os rituais de tucandeira e outras manifestações culturais do município. E como se vê, a planta trouxe realmente progresso para a tribo, devido ao abundante comércio de suas mudas , que são cultivadas em sua maior parte pelos índios Maués.


Doroni Hilgenberg

Editado no Overmundo- 271 votos e 53 comentários
http://www.overmundo.com.br/banco/a-lenda-do-guarana

quinta-feira, 4 de junho de 2009

O APELIDO



O Apelido

Quando fiz dezesseis anos, achei que já estava na hora de arrumar um namorado. Todas as minhas amigas já estavam namorando e eu não queria segurar vela. Embora papai achasse que eu era nova ainda, eu achava que estava na idade certa e da razão. Um belo dia, numa festinha na casa de amigas, fiquei conhecendo o José. José mesmo! Era bonitinho, sabia dançar, sabia conversar e tal como eu era estudante. Achei que daria um bom namorado.


Uma semana depois estava eu toda feliz com um namorado, indo a festinhas aqui, cinemas ali, passeios pra cá, colégio pra lá e tudo corria às mil maravilhas, pois até meu pai depois de conhecer o menino se encantou pelo mocinho. Mas nosso namoro continuou legal até eu descobrir seu apelido: –Juquinha! De cara eu detestei. Porque Juquinha? Fosse Zé ou Zequinha, vá lá, mas Juquinha... jamais! Me parecia tão caipira...


Comecei a implicar com o garoto na esperança de que ele se interessasse por outra garota e esquecesse que eu existia. Vã esperança. Não havia jeito. Por mais que eu deliberadamente faltasse aos encontros, por mais que eu implicasse com suas roupas e seu cabelo, ele não arredava o pé. E eu, via o tempo passando e o Juquinha cada vez mais grudado em mim. Namorado é isso! Pensei comigo que em breve ele ia servir o exército e então eu poderia terminar o namoro pois geralmente naquela época os meninos da classe média, iam servir no Rio de Janeiro. Mas quê! Ledo engano, para azar meu ele foi dispensado. E eu cada vez mais chateada e ele cada vez mais enamorado.


Nesta época eu já estava de olho num certo Antonio que morava no outro bairro. Enfim, que seria de nossa juventude se tivéssemos só um namorado? Seria como provar só um doce até ficar enjoativo. Para aumentar mais ainda a minha insatisfação, minha mãe dizia que o Juquinha era baixinho. Já pensaram? Juquinha e baixinho! A esperança de que ele se esticasse no quartel já não existia e eu, pobre de mim, já sou baixinha. Ficava imaginando que se acaso casasse com ele, nossos filhos seriam anões. Nada contra, mas dois baixinhos não dá pé. Naquela semana terminei o namoro. Pobre Juquinha, julguei ver lágrimas em seus olhos, mas que fazer, era eu ou ele.


Um mês depois, estava de namorado novo, nada mais e nada menos, que o certo Antonio do bairro vizinho. Alto, magro e brincalhão. Mas nosso namoro só durou até eu descobrir seu apelido. Querem saber? Eu não conto, é outra história...


Doroni Hilgenberg

quarta-feira, 6 de maio de 2009

DIBS, EM BUSCA DE SI MESMO

Toda a criança precisa de atenção e carinho
DIBS, EM BUSCA DE SI MESMO

RESENHA


Em seu comovente relato, a autora nos põe em contato com o traumático mundo de Dibs, uma criança que não falava, não brincava e que vivia perdido em si mesmo, muitas vezes tendo violentos acessos de raiva que deixava confusos o pediatra e o psicólogo que tratavam dele na escola. Mas o pequeno Dibs tinha uma inteligência rara e um QI elevadíssimo que, sem o apoio incondicional e o amor da família tradicional, exigente e extremamente conservadora, não encontra campo para se expandir, tornando-se assim, um menino arisco, problemático e fechado em si mesmo, mas ciente das coisas e de tudo o que se passa ao redor, assimilando sozinho seus aprendizados, conhecimentos e conquistas, as quais, devido a sua pouca idade, ainda não tinha noções de sua utilidade e se sentia perdido entre o mundo da criança e o mundo do adulto, o mundo da fantasia e o mundo real, entre o certo e o errado e entre o bem e o mal.

Ciente do que fala em seu livro, a autora Virginia Axline, que também é técnica em ludoterapia e tratamento de crianças com distúrbios emocionais, nos revela o mundo novo que vai se abrindo para Dibs quando este começa a freqüentar as aulas de ludoterapia e em contato com a professora que o entende e o estimula, que não lhe faz cobranças e nem o castiga, deixa-o livre com diversos brinquedos e conversas á sua vontade, ele vai adquirindo confiança e se sentindo cada vez mais seguro de si, e percebendo o seu valor vai encontrando o seu próprio caminho.
E, é por uma simples janela da sala de aula que ele consegue ver o mundo com os olhos de um outro Dibs, mais alegre e consciente de si mesmo, sabendo quem é, o que quer e o seu valor como ser humano num mundo onde impera o preconceito e a intolerância.

Ao ler o livro, fiquei emocionada com a história de Dibs e indignada com o tratamento que o pai ( uma pessoa culta) dispensava ao pequeno, pois além de não lhe dar atenção, ainda o chamava de idiota, palavra que jamais deve ser dita para uma criança em desenvolvimento e não é aceitável que um pai possa tratar o filho como idiota, uma palavra pesada e de conseqüências nefastas no cognitivo emocional de uma criança, ainda mais quando vindas de pessoas que tem por obrigação de transmitir conforto, amor e carinho. Quanto à mãe, logo teve a certeza de que seu filho não era tão mau como o pai apregoava, ele precisava de amor e atenção e sobretudo, respeito pelo seu modo de ser.

Apesar de ter pouca coisa em comum, a não ser os meninos com uma inteligência rara e incompreendida, a história de Dibs, me fez lembrar de outra: “ Meu pé de Laranja Lima”
cujo autor é José Mauro de Vasconcellos. Ele nos conta a história de Zezé, um menino que incompreendido pelo pai, ganhava surras enormes cada vez que aprontava suas traquinagens. Mas ao contrário de Dibs que não tinha amigos, Zezé tinha como confidente um Pé de Laranja Lima, e uma irmã como amiga que sempre velava por ele. Também havia um taberneiro, seu Portuga, que gostava muito do garoto, mas infelizmente morre no inicio da história deixando-o
só e inconsolável, mas aprontando cada vez mais e apanhando também.

Seja como for, trazendo lembranças diversas ou mexendo em nossa consciência, fazendo-nos sentir como é a vida de uma criança fechada e perdida em si mesma, a história de Dibs é triste
e comovente, de uma utilidade sem tamanho na área de medicina alternativa e deve ser lida e entendida por todas as pessoas que exercem a profissão com crianças excepcionais
e problemáticas em qualquer campo da psiquiatria e da pedagogia, que tem por obrigação orientá-las e ajudá-las a encontrar seu caminho. É aconselhável também para todos os pais intransigentes e conservadores que não entendem que é através de uma série de procuras e descobertas, de erros e acertos e principalmente de aceitação, que toda a criança, quer seja problemática ou não, vai se encontrando e delineando seu próprio caminho.


Doroni Hilgenberg

Resenha do Livro:
Dibs, em busca de si mesmo
(psicoterapia infantil)
autora: Virginia M. Axline
tradutora: Célia soares Linhares
editora : Agir, RJ. 2.001
22* edição
Editado no Overmundo

sábado, 25 de abril de 2009

DANDO O TROCO

Gato folgado!

DANDO O TROCO

Já fazia tempo que eu vivia aborrecida com meu marido. Isto porque ele chegava tarde em casa e não levava a chave para que pudesse entrar quando bem entendesse. Não que voltasse de madrugada, isso não, mas sempre chegava depois das 10 horas da noite. E aquilo já estava me cansando, afinal, na época eu tinha três filhos pequenos, que estudavam pela manhã e precisava acordar cedo para despacha-los para o colégio. Mas meu marido parecia pouco estar se importando com o meu aborrecimento, e embora eu brigasse e soltasse umas cobras e lagartos,
acabávamos nos acertando na cama e a chave continuava sempre na porta da sala.
Eu colocava as crianças para dormir e ficava naquela espera enervante até ele chegar, e quando chegava era quase sempre uma briga pelos mesmos motivos, a demora e o medo que eu tinha de que algo pudesse lhe acontecer. Mas ele nem ligava... abusante!!! Gostava que eu ficasse esperando-o para esquentar-lhe o jantar, fazer-lhe um café fresquinho, e depois disso, já era meia noite. E ainda dizia que eu era ciumenta.
E eu respondia indignada:
--Eu ciumenta? Ora, qualquer dia você me paga!
Uma bela noite, eu não agüentei mais... Fechei a casa, liguei o ar condicionado (que fazia um barulho enorme) e fui dormir. Pensei comigo que se não escutasse ele bater, as crianças escutariam e abririam a porta para ele. E, no horário de sempre, ele chega. Bate aqui, bate ali e nada. As crianças com o sono pesado e o ar condicionado ligado, não o ouviram bater, ou se ouviram, não se incomodaram com quem quer que fosse que estivesse batendo àquela hora da noite. E eu, como estava disposta a castigá-lo, também não ouvi nada, estava dormindo o sono dos justos. E ele bateu nas portas e bateu nas janelas e nada de conseguir entrar.
Cansado e com medo que os vizinhos viessem ver o porquê daquela barulheira toda, ele desistiu. Cedinho, quando acordei, e abri a porta da sala, lá estava ele, sentado na cadeira de balanço na varanda, com uma cara mais azeda que limão, olhos inchados e todo dolorido, e eu, sorrindo de orelha à orelha, sequer me importei com o olhar atravessado que ganhei pelo resto da semana, mas a chave mudou de lugar. Até que enfim, tivera a coragem de aprontar também..
Doroni Hilgenberg

A CARTA DA FLORESTA

TENÓRIO TELLES

A CARTA DA FLORESTA
Os Escritores e demais participantes do Festival Internacional da Floresta- FLIFLORESTA, reunidos em Manaus, capital do Amazonas, de 17 a 22 de novembro de 2.008, elaboraram esta CARTA DA FLORESTA, que expressa sentimentos, preocupações e compromissos em relação ao presente a ao futuro da Amazônia e das suas populações.

A Amazônia pela sua complexidade e importância para o futuro da Terra, ocupa o centro das preocupações e debates sobre a vida no planeta. Estudá-la, compreendê-la e defendê-la da ação predatória de certos modelos de desenvolvimento é uma responsabilidade de todos os cidadãos que fazem a história da nação brasileira. É tarefa dos homens e mulheres comprometidos com a vida, com a construção de um mundo melhor e com a esperança. Daqueles que crêem na utopia e na realização do sonho de edificação de uma terra sem males.

Ciosos do significado que a pátria das águas , das florestas e da magia - a nossa Amazônia-tem para a continuidade da vida, afirmamos nosso compromisso de defendê-la e empreender esforços para promover iniciativas capazes de preservá-la como espaço vital do ser humano, dos bichos, das plantas, das águas, dos passarinhos. De todos os seres, inclusive os encantados. E por compreendermos que todos têm direito à vida, comprometemo-nos com a vida e os habitantes da terra de Ajuricaba - herói da Amazônia e personificação dos homens e mulheres de boa vontade que lutam por um futuro generoso, justo e melhor para todos.

1 - Que a Amazônia brasileira pertence ao povo brasileiro, que por meio de suas instituições, deve agir para protegê-la em benefício das suas populações e da humanidade;

2 - Que países amazônicos devem agir com precaução mútua, para proteger seus ecosistemas em benefício das suas populações e humanidade;

3 - Que as intervenções sociais, econômicas e políticas para a Amazônia, quando necessárias, partam das necessidades e valores das suas populações, e não de interesses que se superponham a essa peculiaridade;

4 - Que a Amazônia seja compreendida como múltiplos e complexos sistemas biológicos e culturais, cuja interdependência não pode ser negligenciada em prejuízo do ambiente e das suas populações.

5 - Que as decisões de políticas públicas e outras formas de interveção na natureza e no ambiente social, quando necessários, se efetivem por meio de diálogo entre conhecimento, tecnologia e os saberes tradicionais dos povos amazônicos;

6 - Que as culturas amazônicas, nas suas mais variadas manifestações de criatividade e saber, sejam sempre reconhecidas como produção intelectual indissociavel dos seus produtores indiviuais ou coletivos;

7 - Que se expresse o repúdio, de forma imediata e enérgica, a qualquer forma de preconceitos e de vontade de subjugar os povos da Amazônia;

8 - Que os governos dos países amazônicos empreendam ações conjuntamente para assegurar os deslocamentos culturais das populações tradicionais que vivem nas regiões fronteiriças, para que as suas terras tenham a legitimidade e a continuidade referendadas por suas tradições;

9 - Que os conflitos inerentes às cidades e o meio rural amazônicosejam mitigados pelo Poder Público e pela sociedade, para que não se transformem em risco à qualidade de vida humana e da natureza;

10 - Que a Amazônia represente e seja reconhecida sempre, como um grande gesto de amor por toda a Humanidade.

Presidente Figueiredo, Amazonas/Brasil/Terra: 19 de Nov. de 2.008

Esta carta foi lida por Tenório Telles em frente a Cachoeira da Onça, rodeado de água, árvores, seres da floresta e uma infinidade de seres humanos, que embevecidos e emocionados, assinaram esta carta manifesto, que após o termino do Flifloresta, será exposta ao mundo como um grande gesto de amor pela Amazônia e todo o ecossistema.

Colaboração de Doroni Hilgenberg
http://www.overmundo.com.br/overblog/flifloresta-carta-da-floresta

FLIFLORESTA - 2.008


FLIFLORESTA – Festival Literário Internacional da Floresta-2008


Em Manaus, no mês de novembro, ocorrerá um grande evento que promete mexer com o coração do povo da cidade e da floresta. O FLIFLORESTA, um festival que terá como referência a literatura, discussões e debates sobre o meio ambiente, com ênfase na defesa da Amazônia e também na formação e conscientização de novos leitores.
O FLIFLORESTA é uma realização do INVC- Instituto Nacional Valer de Cultura, CALL- Câmara Amazonense do Livro, Leitura e Parceiros, sob a coordenação de um grupo de intelectuais e profissionais liberais, unidos pelo compromisso com a promoção do livro, o estímulo à leitura e a valorização dos escritores amazonenses. Tem como meta, promover o intercâmbio entre os artistas da palavra da Amazônia e do Brasil, enriquecendo os debates com autores estrangeiros e favorecendo um diálogo crítico e construtivo.
A Programação será intensa, incluindo Simpósio em Presidente Figueiredo (A terra das Cachoeiras), que entre inúmeros temas terá uma palestra sobre mudanças climáticas, desmatamento e os índios da Amazônia. Entre os palestrantes ilustres contamos com a presença do escritor Thiago de Mello, Marcos Barros, Niro Higuchi, Márcio Souza, Frederico Arruda, Abrahim Baze e Daniel Munduruku. No último dia em Presidente Figueiredo ( 19/11/), será feita uma caminhada e a Leitura da “Carta da Floresta”, redigida pelos próprios escritores.
Segundo Tenório Telles, “O estudo, o debate e a troca de experiências, são os pressupostos necessários para a compreensão da realidade. A Amazônia pela sua complexidade e importância para o futuro da terra, ocupa o centro das discussões sobre a vida no planeta" Outras programações (Simpósio de Leituras, lançamentos de livros e palestras) serão feitas no Parque dos Bilhares, situado num dos locais mais privilegiado de Manaus.
Esta previsto a distribuição de 100 mil livros, 400 obras na internet, suplemento literário e Site permanente. E entre as presenças ilustres confirmadas, já contamos até agora com João Gilberto Noll, José Eduardo Agualusa, Alexei Bueno entre muitos outros. Teremos também, o prazer de contar com a presença de nossa querida overmana Graca Graúna.
Doroni Hilgenberg.

TEATRO AMAZONAS

O Magnífico Teatro Amazonas

Quando cheguei em Manaus, há uns 25 anos atrás, uma das primeiras coisas que fiz foi levar meus filhos para assistirem a uma peça no Teatro Amazonas. Lembro que estava passando
“O Fantasminha Pluft” mas pouca atenção dei à peça tão empolgada estava com as maravilhas no interior do Teatro Amazonas. Onde quer que olhasse havia uma obra primorosa, um detalhe especial, uma luminosidade fora do comum, que prendia minha atenção deixando-me maravilhada.
O Teatro Amazonas é o principal cartão postal da cidade de Manaus, esta localizado em frente a Praça São Sebastião, bem no coração da cidade e sua cúpula pode ser vista de longe. Foi construído pelos Barões da Borracha numa época em que o látex era a principal matéria prima da região e o cultivo da borracha enriqueceu muita gente, menos o caboclo seringueiro, chamado de soldado da borracha.
O primeiro projeto para a construção do Teatro Amazonas deu-se em 1.881, através do deputado Fernandes Junior, pois era preciso uma casa de espetáculo à altura dos barões da época que ansiavam por ostentar seu poder e queriam contratar famosas óperas de fora para se apresentar em plena selva. Mas só em 14 de fevereiro de 1.884 é que foi lançada a pedra fundamental daquele que viria a ser um dos mais belos monumentos artísticos do país. Após 12 anos de trabalhos exaustivos, todo em estilo “art nouveau”, o Teatro Amazonas foi inaugurado pela Companhia Lírica Italiana, em 31 de dezembro de 1.896 fazendo jus aos poderosos de uma época.Passaram-se 100 anos e depois de algumas reformas, em 27 de fevereiro de 1.996, o tenor José Carreras abriu as comemorações do centenário do Teatro Amazonas seguido de intensas apresentações e festividades.
O Teatro Amazonas é um dos mais bonitos do mundo, é todo pintado de uma cor rósea e sua cúpula é coberta por 36.000 (trinta e seis mil) telhas vitrificadas importadas da Europa. Esta cúpula, forma um tipo de mosaico, nas cores verde, amarela, azul e branca, que lembra a Bandeira do Brasil. O Teatro possui 3 andares e tem 700 lugares, sendo 250 em poltronas e 450 em camarotes, que são todos recobertos por um tecido de veludo vermelho.As pinturas do teto do Teatro foram feitas pelo artista Crispim do Amaral e reproduzem a visão da Torre Eiffel de Paris. Ao redor, as pinturas representam as artes, dança, tragédia, ópera e música. Em frente aos camarotes nobres, há 22 máscaras da tragédia grega representando Moliére , Shakespeare , Goethe, Mozart, Bethoven, Wagner e outros. O pano de boca do teatro, representa o “Encontro das Águas” entre os Rios Negro e o Solimões, formando o gigantesco Rio Amazonas e mostra Yara, a mãe d`água e os deuses que representam o rio. Para evitar danos nessa maravilhosa pintura, este pano sobe inteiro para o teto, sem precisar ser franzido ou enrolado.
O Salão Nobre do Teatro Amazonas foi decorado pelo artista Italiano Domenico de Angelis e contém pinturas com motivos regionais e estátuas de artistas famosos como o compositor Carlos Gomes e outros. A pintura do teto foi feita com uma técnica tão maravilhosa, que se tem a impressão que o personagem principal da pintura esta sempre olhando para a gente seja de que ângulo for que se aprecie o teto. O piso, é todo feito de madeira trabalhada na Europa, e ao todo são 12 mil peças montadas e encaixadas sem o auxílio de cola ou pregos. O lustre é todo feito em bronze francês e cristal italiano, é tão magnífico que há um mecanismo que permite que o lustre desça ao nível do chão para sua limpeza e manutenção. Na parte externa do Teatro, há grandes colunas e estatuas importadas da Inglaterra . Esta sempre aberto aos visitantes e possuí guias que falam Inglês, Francês, Espanhol e Alemão.
Não deixe de lado esta maravilha, seja você o próximo a conhecê-la.
Doroni Hilgenberg

terça-feira, 21 de abril de 2009

A TROCA


A TROCA

Desde pequeno Mário foi um menino levado, capeta mesmo, desses que levava surras de vara de marmelo mas não se emendava. Deixou os estudos pela metade e não parava em emprego algum. Quando começou a namorar, era uma procissão de garotas atrás dele que não tinha mais fim. Era namorador, beberrão, atrevido e metido a valentão. O pai ficava incomodado, pois se o garoto não tomasse jeito, não sabia o que podia acontecer no futuro.

E de repente, ele mudou. Encantou-se por uma garota cheia de charme. Moreninha, cabelos pretos e longos, bonita de corpo e com uns olhos tão pretos que pareciam duas jabuticabas brilhando mais que estrelas. E um dia eles casaram. E foram chegando os filhos um atrás do outro. Parecia a Mário, que ontem mesmo estava namorando e hoje já estava com 3 filhos para criar. Ângela já não tinha tempo para nada e ele se sentia jogado às baratas como costumava dizer, e sempre que bebia umas e outras, ficava nostálgico e birrento. Sim, porque Mário havia voltado a beber. Geralmente nos finais de semana, saía de casa sábado pela manhã e só voltava bem tarde da noite, e quando voltava.

Com o tempo suas saídas foram se intensificando, a bebedeira foi aumentando e ele cada vez mais praticando abusos com a família e com ele mesmo. Chegava bêbado e brigava com todo o mundo. Batia em Ângela e maltratava as crianças. Ângela gostava dele, mas não se conformava com os rumos que sua vida estava tomando. Mas, o que fazer se não estava preparada para nada e com aquela turminha era difícil arrumar um emprego que valesse a pena? E a vida continuava numa tristeza de morrer. Muitas vezes, altas horas da madrugada ou já de manhãzinha, alguém batia em sua casa para que fosse buscar o marido bêbado, que jazia em calçadas de bar ou mesmo na rua. E lá ia Ângela, aborrecida, maltratada, buscar seu fardo e tentar contornar a situação que já estava passando da conta. Um dia, em que Mário estava lúcido, Ângela expôs a situação e disse que não queria mais viver com ele, queria se separar, pegar uma pensão e ir morar bem longe dele. Já havia falado com a mãe, e esta havia concordado em recebê-la, pois era impossível a filha continuar naquela situação tão constrangedora.

Ao ouvir isso, Mário teve um acesso de fúria tão grande que voou para cima de Ângela com toda a raiva incontida. Homem ferido em seu ego, torna-se um cavalo. Ângela ficou toda machucada, com a cara inchada, um olho roxo além de ter quebrado um braço. Pior foi umas das meninas, que ao acudir a mãe, levou um empurrão tão grande que caiu escada abaixo, ficando também machucada. Os visinhos, ouvindo o barulho e já cansados das sacanagens de Mário, pois não era a primeira vez que batia na família, chamaram a policia. E foram todos para a delegacia, incluindo visinhos, família e filhos. Mário, ficou preso por pouco tempo, mas Ângela conseguiu a separação. Depois disso, Ângela arrumou um emprego e tudo foi melhorando em sua vida.

Já Mário, foi ficando cada vez pior, bebendo cada vez mais e se misturando com toda a espécie de gente que encontrava em seu caminho tão desestruturado. Breve se meteu em brigas, perdeu dentes, levou facadas, ficou sem emprego e viu sua vida ruir. Soube que as filhas já estavam se formando, uma delas já ia se casar e seu filho estava se preparando para o vestibular. E ele, e ele? A realidade caiu-lhe como um raio. Não era ninguém e jamais seria ninguém. Se continuasse a beber ia virar um desses mendigos dormindo ao relento e comendo restos feito um cachorro. Resolveu mudar. Mas para mudar de fato, tinha que ser longe da cidade, dos bares e das más amizades.

Domingo comprou o jornal. Abriu na página dos classificados e lá estava seu emprego:..
“Precisa-se de homem para cuidar de um sítio no quilometro trinta e tal...tratar pelo fone tal.”

E lá foi Mário todo lépido e prosa a procura de um novo começo de vida. Conseguiu! Gostava do sítio, havia paz e ele se controlava para não cair na tentação de andar quilômetros atrás de bebida. Um belo dia, apareceu no sítio uma mulher querendo comprar laranjas. Mário deu-lhe, não cobrou, e disse-lhe que quando quisesse mais era só vir buscar que tinha bastante. E ela sempre aparecia. Apareceu tanto que acabou ficando lá e sendo a companheira de Mário.

E a vida estava boa!

Mas tudo o que é bom dura pouco. Um dos antigos companheiros de bebedeira de Mário, não se sabe como, soube o seu endereço e começou a freqüentar a casa levando sempre uma garrafa de Pirassununga 51. E a garrafa ia rapidinho com os dois entretidos em contar histórias e fatos passados. Esse amigo passou a aparecer seguido e muitas vezes até pernoitava. As garrafas de pinga que antes eram só uma, passaram a ser duas ou três e as bebedeiras se intensificaram.

Numa tarde, já quase escurecendo, Pedro como era o nome do amigo de Mário, aparece lá montado num belo cavalo, que também não se sabe como conseguiu. Mário ficou louco pelo cavalo. Depois de terem bebido além da conta, e já sem saber mais o que estavam fazendo,
Mário disse a Pedro:
- Me vende esse cavalo?
E Pedro:
-Como vou vir aqui? a distância é grande...
E Mário engrossando a voz:
-Não sei, mas vende sim, vende sim...
E Pedro:
-Mas você não tem dinheiro
E Mário:
É verdade, mas tenho a Mara, vamos trocar?
E Pedro:
-O que?...a Mara?
E Mário:--É sim, deixa o cavalo e leva a Mara.
E Pedro, que já estava de olho em Mara:
-Negócio fechado. Mas manda vir já, disse ele. ( esperto!)
E Mário foi até o quarto e disse a Mara:
-Apronte-se mulher, pega umas roupas e vai com Pedro, não sei o que aconteceu, mas estão precisando dele e você precisa ir junto, pois vai ser necessária.
Atarantada, Mara põe umas vestes na sacola e segue Pedro até um ponto de ônibus bem distante sem questionar pois já o conhecia. Não sabia o que estava acontecendo e também não havia notado que Pedro tinha chegado com um belo cavalo.

Uma semana depois, Pedro volta ao sítio atrás de seu cavalo. Ao tomar conhecimento que fora trocada como um objeto, Mara havia fugido dele que agora estava sem mulher e sem cavalo. Mário, primeiramente pensou em discutir e não devolver o cavalo, mas que diacho, o bicho não queria saber dele. Cada vez que ele queria montá-lo, o cavalo relinchava feito besta e se escoiceava feito doido, não deixando que chegasse nem perto de si, quanto mais montá-lo. E então Mário deixou que Pedro levasse seu cavalo com a condição que encontrasse Mara e a trouxesse de volta. E Pedro procurou, procurou tanto, que um belo dia acabou encontrando-a. Mas... quem disse que a devolveu?

Moral: O castigo veio a galope.

Doroni Hilgenberg 02-07-2008
Sobre a obra
Esta é uma história de histórias, contada por outros e adaptada por mim. Tal como uma colcha de retalhos, fui juntando os detalhes e deu no que deu.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A LENDA DO BOTO

O BOTO

A LENDA

Na mitologia Amazônica, encontramos o Boto Rosa, que tem o poder de emergir das águas do rio a noite, e se transformar num belo homem, para seduzir as muheres que se sentem atraídas pelo seu estranho fascínio. Apresenta-se sempre de terno branco e traz na cabeça um chapéu também branco para ocultar os orifícios que estão em sua cabeça e pelos quais respira. A inexistência no Brasil de dados mais concretos até o século XVIII, faz supor que a lenda seja de origem branca e mestiça, com projeções nas culturas indígenas e ribeirinhas.


A lenda do boto é no mínimo interessante. Ela está ligada aos ribeirinhos, às festas juninas, aos bailes caseiros e populares, quando então, todos se encontram para as festividades e as moças colocam seus trajes mais bonitos, se enfeitam e aproveitam para namorar enquanto seus pais conversam distraídos e alheios a tudo. Nessas noites, geralmente de luar, o Boto aparece em forma de um homem alto, bonito, com um chapelão na cabeça e todo vestido de branco. Gentil e cavalheiro, todas as moças ficam encantadas e se deixam levar por sua beleza. E ele então, escolhe a mais bonita e a leva para a praia ou a beira do rio. E ali, tece e acontece, e o amor vinga de uma maneira, simples e direta, mas cheia de encanto e magia. Só que depois, some e nunca mais é visto pelas redondezas, e a garota carrega no ventre o fruto de uma noite de encantamento sem no entanto mostrar-se arrependida do ato consumado. Dizem que geralmente nasce um menino, o filho do Boto.


Deixo aqui, um poema de um grande amigo, poeta e trovador.


EU, O BOTO

Eu venho de um mundo
que tu não conheces;
--do onde, do quando,
o nunca, talvez...

Eu venho de um rio
perdido em teus sonhos,
um rio insondável
que corre em silêncio
entre o ser e o não ser.

Eu venho de um tempo
que os homens não medem,
nenhum calendário
registra os meus dias.
sou filho das ondas
que gemem na praia,
sou feito de sombras
de luz, de luar
e trago em meu rosto
mandinga e mistério
e guardo em meus olhos
funduras de um rio.

Cuidado, cabocla!
cuidado comigo
que eu sou sempre tudo
que anseias que eu seja:
--teus ais, teus segredos
tua febre e teu cio...

Se em noites de lua
sentires insônia
a fome de sexo
queimar tuas estranhas,
a sede de beijos
tua boca secar
e em brasa teu
corpo meu corpo exigir,
contigo estarei
na rede de encanto
cativo nas malhas
da teia do amor.

E quando teus olhos
fitarem meus olhos,
e quando meus lábios
teus lábios tocarem,
e quando meus braços
laçarem o teu
e quando meu ser
em teu ser penetrar
só então saberás
quem sou e a que vim.

E assim que a semente
do amor, do desejo,
vingar em seu ventre
gerando outro ser,
não mais estarei
contigo. Somente
a minha lembrança
permanecerá
boiando nas águas,
barrentas, confusas
de tua memória
cansada, febril...

--Foi sonho? -- foi fato
ninguém saberá!...

(Antonio Juraci Siqueira- autor do poema )

O SER EM SI

O Boto, foi descoberto e estudado cientificamente por Rodriguês Ferreira ( 1.790), e por Henry Walter Bates, um Inglês que permaneceu 11 anos fazendo pesquisa na região Amazônica. O cetáceo, é um mamífero completamente aquático que habita os rios do norte do Brasil. Possui uma cabeça grande, bico dentado e corpo afilado. É quase desprovido de pelos, possui grandes nadadeiras dianteiras, duas mamas em posição posterior, uma cauda que se finaliza em uma nadadeira longa e horizontal e um sistema de sonar sotisficado, localizado numa saliência da cabeça que emite ondas sonoras. Ao nascer pesa cerca de 7 kilos e chega a pesar até 150 kilos quando adulto.

O Boto é simbolo de sedução e energia vital porque os órgãos sexuais desse animal são muito parecidos com o dos humanos, e por isso a razão das lendas envolvendo os botos. Atualmente, o Boto encontra-se em extinção porque o homem atribuí-lhe poderes mágicos e usa seus atributos para fabricação de remédios, amuletos e rituais.

Segundo Vera da Silva, Biologa do INPA, na reserva Mamirauá, a cerca de 530 Km de Manaus, onde se encontra uma das maiores concentrações de boto cor de rosa, vem sendo registrada uma queda de 10% ao ano da população desses animais, e isso deve-se em grande parte a construção de hidrelétricas na Bacia do Amazonas, que isolam os grupos dos botos cor de rosa e dificultam a sua reprodução. Os Botos, existem há mais de 5 milhões de anos, eles nadaram através do Oceano Atlântico e chegaram até o caudaloso Rio Amazonas, encantando a todos que deles se aproximam.

Doroni Hilgenberg ( texto)
Antonio Juraci siqueira ( Poema)